Frente Parlamentar Mista da Saúde recebe apresentação de pesquisa inédita sobre percepção da corrupção na saúde na Câmara dos Deputados
Data de Publicação: 09/06/2026
Estudo apresentado na Câmara dos Deputados, em Brasília, mostra que 66,8% dos entrevistados consideram alta a corrupção no setor e reforça debate sobre transparência e controle na saúde
A Câmara dos Deputados recebeu, nesta quarta-feira (3), a apresentação dos resultados da pesquisa inédita “Indicadores da Percepção da Corrupção no Setor da Saúde”, desenvolvida pela FGVethics e pela FGV Saúde em parceria com o Instituto Ética Saúde (IES). Promovido pela Frente Parlamentar Mista da Saúde, o encontro levou ao Congresso Nacional um debate sobre os impactos da corrupção na qualidade da assistência, na gestão dos recursos públicos e na confiança da população no sistema de saúde.
Os dados apresentados acenderam um alerta. Segundo o levantamento, 66,8% dos entrevistados classificam a corrupção na saúde como alta, enquanto 92,5% afirmam perceber corrupção nas instituições públicas e 88,4% nas instituições privadas. Para os organizadores, os resultados evidenciam uma preocupação que ultrapassa o ambiente acadêmico e exige o fortalecimento de mecanismos de transparência, governança e controle em toda a cadeia da saúde.
Realizado no Salão Nobre da Câmara dos Deputados, em Brasília, o evento reuniu parlamentares, representantes de órgãos públicos, entidades do setor, pesquisadores e lideranças da sociedade civil. A abertura contou com a participação do presidente da Frente Parlamentar Mista da Saúde, deputado federal Dr. Zacarias Calil; do deputado federal Osmar Terra; da coordenadora da FGVethics e responsável pela apresentação técnica do estudo, professora Ligia Maura Costa; do presidente do Instituto Ética Saúde (IES), Sérgio Rocha; do diretor-executivo do Instituto Ética Saúde (IES) e secretário-executivo da Frente Parlamentar Mista da Saúde, Filipe Venturini; e da presidente da Federação Brasileira das Associações de Doenças Raras (Febrararas), Lauda Santos, representante de entidades de pacientes de todo o país.
Na abertura do encontro, o presidente da Frente Parlamentar Mista da Saúde, deputado federal Dr. Zacarias Calil, destacou que a corrupção na saúde ultrapassa os prejuízos financeiros e afeta diretamente o atendimento à população. “Quem vive a saúde por dentro sabe que a corrupção, a má gestão e a falta de transparência não significam apenas prejuízo financeiro. Na saúde isso pode significar fila maior, tratamento atrasado, medicamento que não chega, exame que demora e perda de confiança da população”, afirmou.
O parlamentar ressaltou que os dados da pesquisa demonstram a dimensão do problema e reforçam a necessidade de aprimorar mecanismos de controle, transparência e governança. “Quando uma decisão de saúde é influenciada por interesses indevidos, quem perde é o cidadão. A corrupção na saúde não é apenas um problema administrativo. É um problema humano, que afeta vidas e precisa ser enfrentado com seriedade, coragem e união”, declarou.
Segundo Zacarias Calil, muitas vezes os recursos destinados à saúde chegam aos entes públicos, mas não alcançam plenamente quem precisa do atendimento. “O recurso chega. O difícil é ele chegar ao final da fila”, afirmou.
Também integrante da Frente Parlamentar Mista da Saúde, o deputado federal Osmar Terra afirmou que a área da saúde é especialmente vulnerável à corrupção devido ao elevado volume de recursos movimentados e à complexidade das relações entre o setor público e privado. “A saúde é uma área muito sensível e muito importante. Onde existem grandes interesses econômicos, existe também um risco maior de corrupção. Precisamos fortalecer os mecanismos de controle, estabelecer padrões de monitoramento e garantir que os recursos destinados à saúde cheguem efetivamente à população”, disse.
Durante o debate, o parlamentar classificou a corrupção como “um câncer metastático” que compromete a eficiência do sistema de saúde e prejudica diretamente a população.
Segundo o parlamentar, os resultados do estudo confirmam desafios históricos enfrentados pelo sistema de saúde brasileiro e podem servir de base para aperfeiçoar políticas públicas voltadas à integridade e à eficiência da gestão.
O diretor-executivo do Instituto Ética Saúde (IES) e secretário-executivo da Frente Parlamentar Mista da Saúde, Filipe Venturini, destacou que a realização do evento no Congresso Nacional representa um passo importante para ampliar o debate sobre integridade no setor. “Estar na Casa do Povo tem um significado especial. Este não é apenas um lançamento de pesquisa. É um momento para levar evidências ao espaço onde são construídas as políticas públicas e onde podem surgir iniciativas capazes de enfrentar esse problema que afeta diretamente a saúde da população”, afirmou.
Venturini ressaltou que o estudo representa um marco para o setor por oferecer dados inéditos sobre a percepção da corrupção na saúde brasileira. “Pela primeira vez temos um levantamento nacional que busca compreender como profissionais, gestores, pacientes e representantes de diferentes segmentos enxergam a corrupção na saúde. Sem dados, não conseguimos formular políticas públicas efetivas nem direcionar esforços de prevenção e controle”, disse.
Segundo ele, o objetivo da pesquisa não é apontar culpados específicos, mas fornecer informações capazes de orientar melhorias institucionais. “Não estamos aqui para apontar vencedores ou perdedores. Estamos aqui para compreender a realidade do setor e construir caminhos para torná-lo mais transparente, mais íntegro e mais eficiente”, destacou.
Representando o Instituto Ética Saúde, o presidente Sérgio Rocha ressaltou que a discussão sobre corrupção deve ser entendida, sobretudo, como uma discussão sobre ética. “A palavra principal aqui é ética. Se todos agissem com consciência, se não houvesse conflitos de interesse e superindicações, provavelmente os custos seriam menores e quem seria beneficiado seria o paciente”, afirmou.
Sérgio defendeu ainda investimentos permanentes em educação ética e formação cidadã como instrumentos fundamentais para a transformação da cultura institucional do país. “A gente não vai mudar essa realidade de um dia para o outro. Mas há dois caminhos fundamentais: agir com ética e investir em educação. Sem isso, será impossível promover mudanças estruturais”, destacou.
Durante o evento, a presidente da Federação Brasileira das Associações de Doenças Raras, Lauda Santos, chamou atenção para os impactos concretos da corrupção na vida dos pacientes.
“Para um paciente, a corrupção não aparece como um número em uma planilha. Ela aparece como uma consulta que não aconteceu, um exame que demora, um medicamento que não chega e, muitas vezes, como uma vida que perde a oportunidade de receber o tratamento adequado”, afirmou.
Segundo ela, o enfrentamento da corrupção exige a participação ativa da sociedade civil, dos pacientes e dos mecanismos de controle social.
“Os pacientes não devem ser vistos apenas como beneficiários das políticas públicas, mas como parceiros na fiscalização, no acompanhamento dos recursos e na avaliação dos resultados alcançados”, acrescentou.
Resultados da pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida pela FGVethics e pela FGV Saúde em parceria com o Instituto Ética Saúde. O levantamento contou com 987 respondentes de diferentes segmentos da cadeia da saúde, incluindo profissionais de hospitais públicos e privados, indústria farmacêutica, distribuidores, operadoras de saúde, organizações sociais, órgãos reguladores, médicos, enfermeiros, auditores e usuários do sistema de saúde.
Responsável pela apresentação técnica do estudo, a professora Ligia Maura Costa, coordenadora da FGVethics, destacou que a pesquisa combina indicadores de percepção com relatos de experiências concretas relacionadas à corrupção, ampliando a compreensão do fenômeno.
Os resultados mostram que 66,8% dos entrevistados classificam a corrupção na saúde como alta, enquanto outros 21,5% a consideram moderada. Na prática, quase nove em cada dez participantes percebem a corrupção como um problema relevante no setor.
O levantamento revelou ainda que 92,5% dos respondentes afirmam perceber corrupção nas instituições públicas de saúde, enquanto 88,4% identificam o problema também nas instituições privadas. “A corrupção é sistêmica. Ela não está apenas no setor público. Os resultados mostram que ela também é percebida de forma significativa no setor privado, o que exige ações de enfrentamento em toda a cadeia da saúde”, explicou Ligia Maura Costa.
Segundo a pesquisadora, os resultados revelam fragilidades institucionais, mas também apontam caminhos para fortalecer a governança, a transparência, a prestação de contas e os mecanismos de integridade no setor.
Entre as principais situações relatadas pelos participantes estão favorecimento em contratações, conflitos de interesse, influência indevida na prescrição de medicamentos, realização de exames e procedimentos considerados desnecessários, além do receio de denunciar irregularidades.
A pesquisa apontou ainda que 63,6% dos participantes afirmaram já ter vivenciado, testemunhado ou tomado conhecimento de situações concretas relacionadas à corrupção na saúde.
Outro dado considerado preocupante pelos pesquisadores foi o medo de retaliações. Muitos respondentes relataram insegurança para denunciar irregularidades, apontando fragilidades nos mecanismos de proteção aos denunciantes.
O diretor-executivo do Instituto Ética Saúde destacou que a transparência e o controle social permanecem entre os principais desafios para o enfrentamento da corrupção.
“A transparência ainda é um desafio para o país. O controle social e o acesso às informações são instrumentos fundamentais para que a sociedade acompanhe a aplicação dos recursos e cobre resultados efetivos”, afirmou.
Venturini lembrou ainda que o estudo foi desenvolvido dentro das ações do Mês da Ética na Saúde, iniciativa criada por lei federal para estimular debates sobre integridade e boas práticas em toda a cadeia da saúde.
Os participantes também indicaram medidas consideradas prioritárias para reduzir a corrupção no setor. As principais recomendações incluem o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e controle, ampliação da transparência e da prestação de contas, investimentos em programas de integridade e compliance, proteção efetiva aos denunciantes e realização de auditorias internas regulares.
A pesquisa identificou ainda áreas consideradas mais vulneráveis, como licitações públicas, compras hospitalares, órteses, próteses e materiais especiais (OPME), relações entre os setores público e privado e processos de distribuição e logística.
Segundo Ligia Maura Costa, os resultados oferecem subsídios para a construção de indicadores permanentes de monitoramento institucional e para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da governança na saúde.
“A pesquisa evidencia fragilidades institucionais, mas também oferece caminhos concretos para o aprimoramento da transparência, da accountability e da integridade no setor”, afirmou.
Próximos passos
Os organizadores informaram que o estudo deverá ser reaplicado periodicamente para permitir o acompanhamento da evolução dos indicadores ao longo dos próximos anos.
A proposta é construir uma série histórica capaz de apoiar gestores públicos, instituições privadas, órgãos de controle e entidades da sociedade civil na formulação de ações voltadas ao fortalecimento da ética, da transparência e da qualidade da assistência à saúde.
Ao encerrar o evento, representantes da Frente Parlamentar Mista da Saúde, do Instituto Ética Saúde e da FGV reforçaram que o combate à corrupção deve ser tratado como prioridade nacional, uma vez que seus impactos atingem diretamente o acesso da população aos serviços de saúde e comprometem a eficiência dos investimentos públicos e privados no setor.
https://www.metropoles.com/brasil/camara-recebe-pesquisa-sobre-percepcao-da-corrupcao-na-saude
https://radiosampaio.com.br/camara-recebe-pesquisa-sobre-percepcao-da-corrupcao-na-saude/
https://acreconservador.com.br/pesquisa-aponta-que-668-veem-corrupcao-alta-na-saude/
https://imprensapublica.com.br/pesquisa-mostra-alta-percepcao-de-corrupcao-na-saude/
https://conectanoticiasmt.com.br/camara-recebe-pesquisa-sobre-percepcao-da-corrupcao-na-saude/
https://www.kwai.com/news/detail/66783595-20e0-41ab-9c76-1ba9085cd40b